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ESPECIAL: Quem vai mandar nessa turma?

Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, prepara-se para passar o comando da empresa para seus filhos. Em jogo, um negócio que movimenta mais de R$ 2 bilhões em 30 países

Da Istoé Dinheiro

Todas as histórias em quadrinhos dos gibis da Turma da Mônica, do cartunista Mauricio de Sousa, descrevem um enredo que termina com a consagração da protagonista, a nervosinha e dentuça Mônica. Persuasiva com os colegas, sempre com seu coelho de pelúcia Sansão nas mãos – que serve, muitas vezes, como um instrumento de intimidação aos bagunceiros da turminha –, a menina de eternos 8 anos de idade lidera, no mundo da fantasia, uma galerinha de mais de 300 personagens já criados por Mauricio. Fora do universo dos contos infantis, no campo dos negócios, a Mônica real, inspiradora da personagem, também tem se mostrado sabichona e com o mesmo tino de liderança descrito por seu pai nas revistinhas. 

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A Mônica da vida real: "A empresa vai continuar existindo com qualquer pessoa no comando dela"

Atualmente, ela é a principal executiva da Mauricio de Sousa Produções (MSP), responsável por uma divisão que responde por 90% do faturamento da empresa, a de licenciamento da marca. Embora a empresa não revele números, a Turma da Mônica movimenta cerca de R$ 2 bilhões por ano, segundo estima o próprio Mauricio de Sousa, e possui mais de 2,5 mil produtos estampados com seus personagens em 30 países. Como não poderia deixar de ser, Mônica, aos 53 anos, aparece como uma das mais cotadas, entre os integrantes do núcleo familiar, para assumir o comando da empresa – dentro de um processo de sucessão que tem sido discretamente planejado por Mauricio. 

“Chegou o momento de delegar as funções na empresa, transferindo para meus filhos as atribuições mais importantes da Turma da Mônica”, diz Mauricio, que completará 80 anos em outubro do ano que vem. Além da Mônica, outros cinco filhos – de um total de dez – ocupam cargos na MSP. Mauro Takeda, hoje com 27 anos, que inspirou o pai a criar o personagem Nimbus, é chefe da área de produções. Marina Sousa, 28, responde pela criação e aprovação dos roteiros das histórias em quadrinhos, juntamente com o próprio cartunista. “Ela está desenhando muito bem, acho até que melhor do que eu”, diz Mauricio, sem esconder sua corujice. 

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Marginal do Limoeiro: o prédio desenhado por Ruy Ohtake prevê teatros e espaços temáticos para visitação

Os outros três, Mauricio Spada, Vanda e Valéria, cuidam de negócios que vão de criação de vídeos para a área de cinema até exportação e internacionalização da marca. Apesar de o processo de sucessão estar em pleno curso internamente, com a assessoria direta do advogado Marcos Abe, do escritório Abe, Guimarães e Rocha Neto, nos bastidores da MSP o assunto é tratado com cautela pela família. Ainda em pleno vigor, o cartunista é o mentor criativo das histórias e personagens dos quadrinhos e sua imagem está intrinsecamente ligada à existência – e sobrevivência – da companhia. “O mercado quer saber como vai ficar a Mauricio de Sousa sem o Mauricio”, diz José Roberto Miranda, consultor em empresas de gestão de família. 

Fica fácil de entender por que seu total afastamento da empresa é prontamente descartado quando alguém questiona a Turma da Mônica sem Mauricio de Sousa. “Vendo os exemplos de Oscar Niemeyer e Tomie Ohtake, quero trabalhar até os 100 anos”, afirma Mauricio, sorrindo. O desconforto com o tema sucessão é justificável. Com dez filhos de quatro casamentos, a missão de passar o bastão para a pessoa certa no momento certo é uma das mais desafiadoras histórias a serem escritas pelo cartunista. “O Mauricio tem muito receio da parte criativa”, afirma um especialista em sucessões familiares, que tem sido consultado pelo próprio Mauricio. 

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O primogênito: o cãozinho Bidu, logomarca da empresa,
foi o primeiro personagem de Mauricio

“Sem a criatividade, todo o resto da empresa pode se perder, inclusive o licenciamento dos personagens.” Antes mesmo de pensar em escrever seriamente o capítulo da sucessão, Mauricio de Sousa já via sua filha Mônica enveredar, espontaneamente, pelos setores administrativos da empresa. Em 1978, com 17 anos de idade, começou a atuar como vendedora de uma antiga loja de souvenir dos personagens da Turma, na rua Augusta, em São Paulo. A experiência, segundo ela, revelou que seu tino comercial era mais forte do que o artístico. Três anos depois, foi deslocada para a área de licenciamentos e teve de provar que não era, simplesmente, a “filha do dono”. 

Estreou na empresa fechando um importante contrato com a Alpargatas, que passou a utilizar a Turma em seus calçados. A bem-sucedida negociação resultou em sua transferência para a área de alimentos, que precisava de uma gestão de pulso firme. “Fiquei muito brava com o meu pai, mas depois percebi que foi bom para conhecer outros setores”, diz Mônica. Nos corredores da MSP, a substituição do pai pela filha – ou por algum outro herdeiro de Mauricio – tem gerado comentários e apostas informais entre os 500 empregados. “É consenso que a Mônica é a mais preparada para assumir”, afirma um funcionário, que trabalha há quase uma década na companhia e que pediu para sua identidade ser preservada. 

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“Mas ela é vista como uma executiva enérgica e extremamente autoritária.” Já o filho Mauro, outro potencial sucessor direto de Mauricio, é visto com bons olhos, pela personalidade mais tranquila e por ter uma veia artística mais apurada. “Ele possui características semelhantes às do pai e tem um futuro promissor na empresa”, diz o mesmo funcionário. “Mas, evidentemente, ele ainda tem menos experiência para liderá-la”, afirma outro funcionário. Questionados sobre a dança das cadeiras, Mauricio, Mônica e Mauro se esquivam. “A empresa vai continuar existindo com qualquer pessoa no comando dela”, afirma Mônica, de forma diplomática. 

“Isso é melhor você perguntar para o meu pai”, diz Mauro. Perguntado, o pai da Turma desconversa, inclusive quando a indagação vem dos próprios filhos. “Outro dia eles levantaram esse assunto”, diz. “Falei para eles: Crianças, vamos esperar.” Por enquanto, a ideia é promover uma transição programada, com seu gradativo afastamento do dia a dia dos negócios, e garantir autonomia ao trio Mônica, Marina e Mauro em suas respectivas áreas. Sob o comando de Mauricio de Sousa ou de seus filhos, a Turma da Mônica terá o desafio de administrar nos próximos anos uma marca presente nos mais diferentes setores da economia. 

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Marina: aos 28 anos, a filha de Mauricio é o braço direito do fundador nos roteiros dos quadrinhos

Empanados de frango da Seara, fraldas da Kimberly Clark, maçãs, brinquedos, móveis fabricados pela Tok & Stok e extrato de tomate Elefante, da Cargill, que estampa o paquiderme Jotalhão na embalagem há 35 anos, são alguns exemplos de até onde pode chegar a influência dos personagens dos quadrinhos na hora de vender produtos. Atualmente, são mais de 150 empresas que utilizam a prole artística de Mauricio para turbinar suas vendas, inclusive a primogênita criação, o cãozinho Bidu. Segundo dados da Associação Brasileira de Licenciamentos, o setor movimentou R$ 12,4 bilhões em 2013. “No ano passado, quando a Mônica completou 50 anos de existência, aumentamos em 90% o ritmo de contratos de licenciamentos”, diz Mônica.

A multiplicação dos contratos, no entanto, não foi suficiente para bancar os planos grandiosos de Mauricio para sua empresa. A tão sonhada expansão internacional teve de se limitar às revistas, que já circulam em países como China, Itália e Portugal. Empresários do Japão, país dos mangás, despertaram para o potencial da Turma. Nos últimos meses, houve uma intensificação nas negociações com os asiáticos, que desejavam vender os mais diversos produtos licenciados da Turma da Mônica e ficaram impressionados com o alcance da marca. Segundo o cartunista, foi o chamado “Custo Brasil” que impediu que a exportação para a terra do Sol Nascente fosse viável. 

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“É o nosso maior fantasma”, diz. “Os japoneses perceberam que aqui os produtos ficariam três vezes mais caros e resolveram produzi-los no país deles, o que é uma pena, pois deixamos de gerar empregos aqui no Brasil.” Entre os principais produtos, está o desenho animado Mônica Toy, que está sendo o cartão de visita da marca em diversos países. Em 2013, o ano do cinquentenário da Mônica também foi celebrado pela recuperação financeira da MSP. O fechamento do Parque da Mônica, em 2010, deixara um rombo de R$ 40 milhões nas receitas da empresa. Depois de 17 anos no Shopping Eldorado, na zona oeste de São Paulo, o empreendimento fechou as portas. 

Junto ao problema, uma possível solução: um grupo estrangeiro ofereceu, no mesmo ano, mais de R$ 2 bilhões pela empresa e pelo direito de exploração comercial de todos os personagens de Mauricio. A proposta foi recusada. “Não quero ter ninguém se metendo nas criações”, afirma o cartunista. Por isso, a abertura de capital aparece como uma possibilidade distante para ele. “Como sou um eterno otimista, sempre acho que o atual é o melhor momento da empresa”, afirma Mauricio, que detém 86% do mercado editorial infantil no País, com dois milhões de gibis vendidos mensalmente pela Panini. 

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Esse segmento foi incrementado com o lançamento, em 2008, da coleção Turma da Mônica Jovem, que chega a vender até 500 mil exemplares por edição. O segundo colocado, o Homem-Aranha, também distribuído pela Panini, vende 200 mil. “Nosso próximo projeto será lançar a Mônica Adulta, destinada a um público mais maduro”, diz Mauricio. Depois dos problemas financeiros, Mauricio parece ter se tornado menos sonhador – característica marcante da personalidade de Horácio, confessadamente seu alter ego – e mais realista ao projetar o futuro da empresa. Em 2009, em entrevista à DINHEIRO, o cartunista revelou planos de inaugurar sete parques, sendo cinco no Exterior. 

Atualmente, mais comedido, sua intenção é reabrir o antigo empreendimento no futuro Shopping Nova 25 de Março, construído pelo grupo Savoy, um centro de compras que será erguido numa área de 200 mil metros quadrados nas proximidades da Marginal Pinheiros, no bairro de Santo Amaro, na capital paulista. O valor estimado para o negócio é de R$ 60 milhões, mas, desta vez, haverá investidores para seu financiamento. No terreno vizinho, nove mil metros quadrados estão reservados para o novo prédio administrativo da MSP. Desenhado pelo arquiteto Ruy Ohtake, o prédio terá quatro andares, dois teatros e diversos espaços de interação com o público, que poderá visitá-lo e se sentir como se estivesse no próprio Bairro do Limoeiro, local onde vivem os personagens da Turma nos quadrinhos. 

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Tipo exportação: Mônica Toy é o principal produto
para crescer no Exterior

O investimento na construção é estimado em R$ 20 milhões. A nova sede deverá ser entregue em 2018. “Tudo foi pensado para levar o visitante e os funcionários ao mundo da Turma da Mônica e do próprio Mauricio”, afirma Ohtake. Mauricio também aposta fortemente em outros dois setores. O Mauricio de Sousa Ao Vivo, vertente de shows de teatro, musicais e até circo, comandado pelo filho Mauro, faturou R$ 4,5 milhões no ano passado. Com dez shows itinerantes pelo País, já atraiu mais de um milhão de espectadores. A expectativa de Mauro é que, em cinco anos, o negócio represente 50% das receitas da empresa. Mauro há apenas quatro anos se integrou ao time. 

Durante anos foi ator e cantor de peças da Broadway no País, como Miss Saigon, mas, agora, quer ajudar a tomar conta dos negócios da família. “Me vejo velhinho aqui, criando e perpetuando a Turma da Mônica, que também é minha”, diz Mauro. A área de games, comandada pelo neto do fundador, Marcos, filho de Mônica, também é uma aposta do próprio avô. “O Marquinhos brinca que o seu vai ser o maior setor da empresa em poucos anos, e os outros riem”, afirma Mauricio, que já negocia com empresas nacionais e internacionais a criação de games para as plataformas mobile. “Mas acho que nunca é bom rir dos jovens de hoje.”

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Mauro Takeda: "Me vejo velhinho aqui, criando e perpetuando
a Turma da Mônica, que também é minha" 

A primeira parceria fechada no setor foi com a paulistana Insane Games. Por enquanto, dois jogos para smartphones foram desenvolvidos: Coelhadas da Mônica, que custa US$ 1,99 em lojas online de aplicativos, e o Jogo do Cascão, disponibilizado gratuitamente. Em cada um deles foram investidos R$ 200 mil para o desenvolvimento. “Ainda temos dois outros jogos no contrato, mais um do Cebolinha e outro da Magali”, afirma Diego Beltran, dono da Insane. “A empresa aposta muito que o futuro dos personagens deles será o digital.” Outras áreas, como cinema, também estão recebendo seus investimentos.

Mauricio promete novos filmes para voltar aos cinemas em 2015, depois de um hiato de sete anos nas telonas. O primeiro será o do Horácio, em 3D, no ano que vem. Quem conhece as histórias da Turma da Mônica já sabe. Assim como os planos “infalíveis” do Cebolinha, que quase sempre dão errado na busca pela conquista da rua no Bairro do Limoeiro, nem sempre as estratégias da MSP se mostraram perfeitas. Mesmo assim, os tropeços não tiraram o brilho e a grandeza da marca no universo infantil. Onde Mauricio quer chegar? “Conhece Walt Disney? Então...”, diz o quase octagenário fundador. Nesse caso, não custa nada acreditar.

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7 Comentarios

  1. Oi Matheus, muito legal esta matéria sobre os rumos da MSP. Entendi nas entrelinhas que o objetivo maior da empresa é a manutenção do faturamento, é claro. Isso vem 90% dos licenciamentos, portanto, seja com Mauricio de Sousa, ou com algum sucessor, a MSP não pretende focar nos quadrinhos, que vendem muito bem, aliás, mas que não são o carro chefe da empresa.. De tudo isso, concluo que não teremos mudanças significativas nas hqs e personagens, no sentido de resgatar o padrão das décadas de 70, 80 e 90. Portanto, só nos cabe desejar boa sorte à MSP enquanto empresa, e ficar na saudade dos bons tempos da Turma da Mônica, que não voltarão nunca mais. Abs.

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    1. Obrigado. Paulo. Só nos resta desejar boa sorte mesmo!

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  2. Matheus, a matéria é muito interessante e desde já eu agradeço por você compartilhar ela aqui, na íntegra... coisa essa que nenhum blogueiro que conheço fez. Obrigado!

    Sobre o assunto em si que li, penso que a Mônica estará mais à frente da empresa já que ela é inteligente para com os negócios e enérgica. O Mauro é um ótimo cara também e quem sabe ele seja o braço direito de Mônica nessa empreitada, mas, por enquanto, a MSP precisa mesmo que seus funcionários tenham uma pessoa mais enérgica para cuidar dela, pois já hoje sinto que há um coleguismo entre roteiristas e o Mauricio de sousa que não está sendo nada bom para as revistas. O Mauricio se deixa levar por alguns roteiristas, pelas ideias deles de mudar isto e aquilo, e isso não é nada bom.

    Outra coisa muito ruim nessa empresa é que os funcionários, em matérias como essa, dificilmente dão seus nomes nos depoimentos. Acho isso uma covardia. Créditos já!

    Abraços.

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    1. Obrigado, Fabiano. Na realidade, vi no seu blog sobre essa reportagem, e procurei saber mais, daí encontrei-a e a republiquei no blog!

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  3. Legal mesmo a matéria.

    "e que pediu para sua identidade ser preservada"
    - Deprimente esse comportamento dos funcionários do MSP, que têm medo de falar.

    “Não quero ter ninguém se metendo nas criações”
    - Seria até melhor se tivesse, já que a parte criativa anda um lixo.

    "dois milhões de gibis vendidos mensalmente pela Panini"
    - Que número, hein? Aí vêm aqueles "expertos" do site Planeta Gibi dizer que o MSP não vende nem cem mil exemplares.

    Abraços!

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    1. Valeu, Kleiton. Faz tempo que nao comento no seu blog, me desculpe! estou com muito pouco tempo... trabalho e estudos é complicado!!

      Sobre o Planeta Gibi, acho que cabe a eles se informar mais e nao falar besteira!

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  4. Surpreso me deixou quando afirmou ter lido algo no meu blogue. Sei que o tempo está voando, sinto isso na pele, por isso não achei que você fosse lá.

    Abraços. Boa semana!!

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